JARDIM DIGITAL W4LKER

NOTAS E IDEIAS

a guerra dos sexos - sérgio rodrigues

criado em: 23:53 18-12-2022

Relacionado

uma mulher não gostava de dizer “uma mulher” o que ouvia era “mamu”
Angélica Freitas apud Sérgio Rodrigues. Viva a língua Brasileira

Masculino? Feminino? Tanto faz? Nenhuma das alternativas acima? Os casos conflituosos de gênero têm ajudado a esquentar os debates sobre a língua.

Nem sempre o que está por trás deles é uma discussão política. Para citar só um exemplo, o destino ambíguo de termos importados que não têm gênero em sua língua de origem, como (o? a?) selfie, passa longe de considerações ideológicas. Na maioria dos casos, contudo, a lógica do questionamento é a que se convencionou chamar de “politicamente correta” — que mesmo tendo méritos é vulnerável à acusação de privilegiar a luta simbólica como compensação e disfarce para a impotência diante dos problemas reais.


Todo mundo já deve ter esbarrado com esta travessura politicamente correta de grande sucesso em redes sociais (mas não só nelas): um x, uma arroba ou um e como substitutos da vogal o naqueles plurais que englobam os gêneros masculino e feminino. Como se sabe, nossa língua não herdou do latim o gênero neutro. A tradição manda o masculino quebrar o galho nesse papel, abarcando os dois gêneros.
Como provocação, tomada de posição política, expressão iconoclasta da liberdade de moldar a língua, o x, a arroba e o e valem. O ativismo que envolve seu emprego não se limita à denúncia da suposta desvalorização do feminino embutido na regra do plural. Prega também a inclusão de quaisquer gêneros alternativos — no sentido de orientações sexuais — já inventados ou ainda por inventar.
Digamos que até aí esteja valendo. Nem só de gramática vive o homem (e a mulher e os transexuais e todo o etc. do mundo). Pinta o bigode na Mona Lisa quem quiser, pois entre outras coisas a língua é isso mesmo: uma caixa de Lego para o falante e um campo de batalha simbólica para diferentes grupos de interesse.
O problema começa quando os cultores da novidade tentam fazer dela, inclusive em ambientes acadêmicos, uma proposta de intervenção gramatical. É importante dizer que esse x, essa arroba e esse e têm tanto valor gramatical quanto um emoji, um coraçãozinho que significa “amo”, um blz no lugar de beleza. Ou seja, nenhum.
Amigxs, amig@s e amigues são signos agramaticais que invertem a ordem natural dos fatores de qualquer língua, começando escritos para depois serem orais — e, pior, só amigues não fracassa antes de atingir a oralidade. Por razões profundas e puramente linguísticas, nada a ver com ideologia (nem com a gramática normativa), acredito que esse tipo de plural esteja condenado a ser um modismo esquecido em futuro não muito distante.

Sérgio Rodrigues. Viva a língua Brasileira (Locais do Kindle 1942-1952). LeLivros. Edição do Kindle.