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Por que os filósofos desconfiam dos seus sentidos

criado em: 19:11 13-12-2022

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Considerando que o fanatismo nasce de um desejo pelo comando produzido por processos sociais, é possível, de fato, combatê-lo, sendo que ele é produto do modo de vida no qual estamos imersos?

O texto discute como a filosofia tem historicamente procurado separar a verdade do engano, usando metáforas como a caverna de Platão para ilustrar esta ideia. O texto também discute como filósofos como Descartes e Kant têm se agarrado à questão do olhar e sua relação com a verdade e a ilusão. O texto sugere que, para esses filósofos, o olhar deve ser treinado para evitar enganos e chegar a uma verdadeira compreensão do mundo. Ainda: como a filosofia de Nietzsche difere da de Kant, particularmente no que diz respeito ao conceito de fanatismo. Nietzsche vê o fanatismo não como uma falha moral, mas como um produto de processos sociais e da forma como as sociedades humanas são estruturadas. O texto sugere que, ao invés de tentar combater diretamente o fanatismo, pode ser mais produtivo interpretar e compreender as causas subjacentes a este fenômeno. O texto também levanta questões sobre a capacidade dos indivíduos de acessar a razão e distinguir a verdade da falsidade.

Alguns séculos antes das notícias falsas, que intencionalmente conduzem o leitor das redes sociais a crer em certo sentido enganoso dado por textos, áudios, e, principalmente, por imagens que circulam, os filósofos, de maneira mais radical, desconfiaram da ideia de que representações sensíveis, por si, pudessem ser fiadoras de uma verdade sobre o mundo. É o que nos indica, por exemplo, a metáfora mais conhecida da história da filosofia, a da caverna de Platão, que pode ser interpretada como um processo de construção de uma consciência que desconfia do senso comum dado pelas imagens imediatas, revelando o quão enganadora uma cena observada sem a iluminação adequada parece ser: o prisioneiro que, ao se livrar das correntes, percebe que não olhava para marionetes, mas para a projeção de suas sombras, deve, a princípio, deslumbrar-se com a luz do fogo que lhe mostra a verdade do jogo de cena, acostumando-se aos poucos com a nova realidade. Ao sair totalmente da caverna e vislumbrar a luz do sol, ele conclui que é dali que toda vida surge no mundo, e o sol passa a ser pensado como origem e causa de tudo que estivesse ao alcance de seus olhos.

A luz do fogo e do sol que desmonta o teatro criado para enganar são algumas das metáforas que ilustram como a filosofia busca tornar visível a fronteira que separa o saber do não-saber, mesmo que seja ao preço de se descobrir que aquele que conhece, na verdade, nada sabe, como costumava provocar Sócrates. O modelo platônico do amadurecimento do olhar inaugura uma tradição que, apesar das peculiaridades de cada filósofo e de seu tempo, circunscreve certa educação da visão como emblema do pensamento; na leitura dos textos, percebe-se como são frequentes os filósofos que comparam o olhar ao espírito. Já na idade clássica, Descartes descreve, nas “Meditações”, como os sentidos devem ser as primeiras fontes de desconfiança, dando o exemplo de um pedaço de cera retirado de uma colmeia que derrete ao ser exposto ao fogo: nesse caso, a visão, por si, induziria ao erro do observador, pois os sentidos percebem uma mudança no objeto, e seria possível concluir que se trata de dois objetos diferentes. É o juízo, manifestado pelo entendimento, que torna possível que a cera seja identificada como um só objeto, apesar de sua mudança física.

Como contraponto aos enganos do erro, a dúvida hiperbólica cartesiana, guia da certeza da existência, expõe, por meio da análise e da capacidade de distinguir as coisas simples, um sistema de regras que podem corrigi-lo, constituindo-se como um campo acessível a qualquer ser humano que acompanhe o método de seu raciocínio. O espírito cartesiano recomenda, então, a aproximação do olhar para que o elemento mais simples do objeto seja identificado, dissolvendo, assim, a obscuridade que leva ao erro.

Se a visão despertou em Descartes uma preocupação metodológica quanto à correção dos juízos, pode-se afirmar que Kant, na “Crítica da razão pura”, identificou outro campo do pensamento que percorre a questão do olhar, gravitando não mais exatamente em torno do perigo do errado e do verdadeiro, mas do problema da ilusão: como expressão máxima de seres não apenas racionais, mas morais, a razão, quando não retificada pela revolução crítica, operaria de forma ilusória, constituindo juízos que não estão formalmente errados, mas que, por estarem ancorados em conceitos incondicionados e sem amparo nas representações do mundo sensível, como Deus, alma e eternidade, podem iludir ao se apresentarem sob a forma das quatro antinomias da razão. A ilusão, assim, traduz certa atividade racional que se confunde com uma tendência da mente a se deixar levar pelas aparências que ela mesmo secreta em um campo prático da razão com o qual Kant trabalha em suas obras crítica posteriores, a “Crítica da razão prática” e a “Crítica da faculdade de julgar”, o que nos remete novamente aos problemas que as representações sensíveis provocam não somente no âmbito do conhecimento, mas também na constituição da moralidade humana.

Como exemplo da fronteira tênue que separa esses dois campos da razão, pode-se mencionar como, na Analítica do Sublime da “Crítica da faculdade de julgar, o filósofo preocupa-se em delimitar dois estados da mente produzidos por afetos: o sentimento do entusiasmo, que ocorre quando a mente contempla sua própria atividade moral de forma reflexiva, e a paixão do fanatismo (Schwärmerei, também traduzido como visionarismo ou devaneio), que desvia o sujeito do mero entusiasmo e leva-o à busca de algo que o apodera para além do mundo sensível, como uma “ilusão de ver algo para além de todos os limites da sensibilidade, isto é, de querer sonhar segundo princípios (delirar com a razão)”.

Ou seja, ao contrário da cera derretida de Descartes, produto de uma qualidade física do mundo que pode enganar, aqui não se trata de um mundo que induz ao erro, mas de algo do campo dos afetos que é acrescentado ao sensível, dando-lhe um sentido delirante ao fazer as coisas sonharem. Cabe-nos, então, responder se as fake news operam de forma semelhante, produzindo delírios virtualmente concretos, que alimentam tendências afetivas de determinados grupos humanos. Diria Kant, acerca desse tipo de fantasia, que tais grupos permanecem distantes do telos moral da razão prática, a determinação da vontade e sua capacidade de criar o reino dos fins, que apenas encontra legitimidade crítica no sentimento moral do entusiasmo.

Considerando que o fanatismo nasce de um desejo pelo comando produzido por processos sociais, é possível, de fato, combatê-lo, sendo que ele é produto do modo de vida no qual estamos imersos?

Apesar das diferenças, aspecto comum que acompanha os sistemas dos filósofos mencionados, e que se acentua após o iluminismo moderno, reside na crença na educação voltada para a autonomia dos sujeitos, que, então, se tornariam capazes de identificar seus erros e ilusões e aptos a pensarem por si. É a posição que encontramos em Kant, e que constitui parte significativa dos valores das sociedades modernas. No entanto, alguns filósofos, talvez mesmo como consequência do alcance que a dúvida estabeleceu no pensamento, desconfiam da estabilidade desses valores. É com esse espírito de suspeita, acompanhado de seu humor peculiar, que se pergunta Nietzsche no livro “Além de bem e mal”: “há muito tempo aprendi a pensar de outro modo sobre enganar e ser enganado, a estimar de outro modo, e tenho pelo menos um par de cotoveladas prontas para o cego furor com que os filósofos se rebelam contra serem enganados. Por que não?”. Cegos – que ironia! – passam a ser os filósofos, esses crentes no método e em uma verdade universalizável e, por que não, visível. Os homens, imersos em suas perspectivas, suas crenças, representações e exigências de certeza, na verdade são incapazes de enxergar “para além de sua esquina”, e, para Nietzsche, o infinito limita-se às interpretações sobre a força de cada ponto de vista socialmente compartilhado.

A própria lógica não resiste aos ataques de sua filosofia, pois nela já há uma perspectiva, ou seja, um juízo de valor determinado pela “vida”. Já munido de saberes fisiológicos e biológicos (diferenciando-se, portanto, do pensamento puro de Kant), Nietzsche remaneja o olhar crítico que a tradição iluminista dispensa ao fanatismo e o compara a um adoecimento de um tipo de desejo egoico que perde força com o processo de socialização humana e se dispõe a ser comandado, tornando-se “a única força de vontade que também os fracos e inseguros podem ser levados a ter, como uma espécie de hipnotização de todo o sistema sensório-intelectual, em prol da abundante nutrição (hipertrofia) de um único ponto de vista e sentimento, que passa a predominar”.

Com o afrouxamento das pulsões das vontades do ego, o fanatismo, ao ceder as energias do sujeito à sua crença absoluta, oferece “para incontáveis pessoas um apoio, uma nova possibilidade de querer, um deleite no querer”. Em outros termos, como seres que creem nas “ilusões da gramática” (diriam os psicanalistas, como seres que falam), os filósofos, em seu medo do engano, podem até ser tão fanáticos quanto aqueles para quem costumam apontar o dedo; a exceção, para Nietzsche, seria o espírito livre, o novo modelo de pensador que seus textos procuram formar. Diferentemente de Kant, Nietzsche não contrapõe o patológico à lei moral, mas vê na patologia antes uma caminho possível para se pensar as origens psicofisiológicas da moralidade como um fato social: sua reflexão sobre o fanatismo remete ao modo como ele interpreta o processo civilizatório e o nascimento dos sistemas morais, pensado como forma de domesticação, de trabalho sobre si mesmo, que os homens impuseram-se em suas relações sociais, remanejando sua economia pulsional – Freud se aproximaria desse modelo poucos anos depois. Nesse sentido, se os delírios identificados por Kant nas tinturas com as quais o fanático colore o mundo nos conduz para um incômodo lugar que alimenta as mais terríveis doenças sociais, como as fake news, é porque identificamos nele um mal-estar no elemento fundante que constitui as sociedades humanas.

Por fim, considerando que o fanatismo nasce de um desejo pelo comando produzido por processos sociais, é possível, de fato, combatê-lo, sendo que ele é produto do modo de vida no qual estamos imersos? Ou seja, ainda é possível crer, como Descartes, que todos, por meio dos passos do método, podem acessar adequadamente a razão e distinguir, racionalmente, o que é fake e o que não é? Ou resta-nos apenas interpretar não o fanatismo, mas o fanático, de modo a localizar e diferenciar o sentido do mundo que produz esse tipo de adoecimento, tornando possível, assim, avaliar o seu valor? É evidente, não há respostas simples, e aqui nos limitamos a tentar encontrar um melhor contraste aos fakes do mundo virtual; a posição filosófica elucida-se ao se contrapor ao lugar onde já não é mais possível pensar.

Lara Pimentel Anastacio é graduada em direito e filosofia, atualmente é doutoranda em filosofia na USP (Universidade de São Paulo). Pesquisa Nietzsche e a relação entre ciências biológicas e sociais no séc. 19.