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NOTAS E IDEIAS

aquela vez que escrevi sobre meu avo no inumeraveis

criado em: 10:57 2022-08-03

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Ivo De Barros Não é Um Número

Nunca se esqueceu de sua querência e descansa agora, em pampas míticos, junto dos seus.

Esta é uma carta aberta do neto Walker para seu avô, Ivo de Barros

Ele era mais que um avô para mim: era o alicerce da minha história de vida, e também uma presença amorosa com a qual sempre pude contar a qualquer hora do dia ou da noite. Mas foi no seu aniversário de 80 anos, em 2019, que pudemos ver que ele era isso para muitas pessoas. As fotos daquele dia eu visito amiúde, e me alegra saber que tivemos tantos dias felizes — muito mais do que eu poderia esperar, até. Churrascos aos domingos, festas de aniversário, Natal e Ano Novo, sempre reunindo irmãos, filhos e netos, além de amigos mais antigos do que a vida toda de alguns de seus netos.

Está agora nos pampas celestiais, meu avô. Na querência divina, descansa a paz dos justos. Ele, que viveu pela tradição e a ela foi fiel a vida toda. Ele que administrou Centros de Tradição Gaúcha, e que dirigia até seu estado natal quase todos os anos — mesmo com idade avançada. Como ele ficaria orgulhoso ao ver em seu funeral alguns de seus netos vestidos a rigor, a bandeira do Colorado e todo mundo cantando aquela música dos Monarcas que ele tanto amava, “O Vento”.

Gosto de pensar que ele não sentiu nem dor nem medo. Pois se sentiu, não deu para perceber no seu último áudio pelo celular, no qual ele mandava um "bom dia" quase que diariamente nos últimos anos: ele disse apenas que se sentia melhor, que estava se recuperando. Talvez ele estivesse apenas nos protegendo, como sempre fez. Ele estava ciente da gravidade do problema, posto que assistia aos jornais todos os dias e gostava de se manter informado. As estatísticas de mortalidade para a pessoa intubada era altíssima, mas essa informação ainda não estava tão disseminada. Antes de isso acontecer, eu sei, ele foi sedado, de modo que tudo acabou como um sono muito pesado e irresistível.

Quando me avisaram — e foi meu primo quem o fez, “olha, vem para cá, o vô não tá bem” —, eu ainda tentava não pensar no pior. Mas eles que haviam estudado Medicina estavam mais céticos. Com todo mundo enfiado na casa da minha irmã, que é enfermeira no hospital em que ele foi internado, acentuou-se uma divisão entre os que acreditavam e os que não acreditavam na recuperação. Pude visitá-lo, pois sua esposa, Tia Irma, cedeu sua vez para que eu pudesse vê-lo, junto com outro primo. Quando me aproximei, não o reconheci, em parte por ele me parecer imenso, mas também porque ele não respirava daquele jeito. Meu avô tinha uma respiração compassada e uma presença calmante, alegre até. Toquei seu peito de modo a lembrá-lo que ele tinha motivo para ficar entre nós e depois me despedi. Dois dias depois ele finalmente partiu.

Sem ele nossa família fica desamparada. Ninguém juntava a gente como ele. Ele era o significado de estarmos todos onde estávamos e sermos aquilo que éramos. E talvez seja isso o seu maior legado. Hoje somos muitos, estamos dispersos, mas unidos naquele mesmo amor que um dia ele nos deu. Para alguns ele pode ser mais importante que para outros; encaixando-me nesta última categoria, percebo que não comecei nem a esboçar o tamanho de seu valor para mim, para minha história, para tudo aquilo que me aconteceu até hoje. E agora que sou parte do time que colabora neste Memorial — e com a benção de meu querido avô —, quero, preciso, virar a página e ajudar aqueles que precisam de mim. Como, afinal, ele fez com todos nós.